sexta-feira, 19 de julho de 2019

"Gurizada Medonha" - "A Águia de Pinhal"

Segue mais um capítulo dessa saga dos anos 80...


"Outro grande quartel-general era a casa do Manuca, em Pinhal. Lá aconteceram várias histórias clássicas. Vamos ver algumas. A primeira que lembro é a história da “Águia”, uma caturrita que era o “xodó” da irmã do Manuca. De “águia” o bicho não lembrava nada. O animal já deveria ter uns 40, 50 anos de idade, toda pelada (de tão velha), com apenas duas penas, meio verde-amareladas, grudadas na traseira, onde outrora deveria ter sido o rabo da ave. E o bicho era todo mimado, não podia ficar sozinha em casa, tinha que ter gente junto cuidando, porque senão poderia ficar “deprimida” ou tentar fugir, ou seja, uma frescurada só... Na hora do almoço, ou da janta, a “Águia” comia no prato junto com a dona, e de vez em quando ela dava uma “banda” pela mesa e bicava dos outros pratos também. Todo mundo achava uma graça a “águia” se esbaldando na mesa, e eu ficava indignado quando aquele bicho abusado vinha e levava uma folha de alface ou um pedaço de tomate do meu prato. A solução foi eu temperar com bastante vinagre e pimenta o meu rango, aí eles afastavam a “águia” quando ela se aproximava da minha comida. Num certo dia, lindo de sol, pela manhã, a irmã do Manuca disse para nós ficarmos em casa, cuidando da “águia”, que eles iriam cedo à orla e voltariam lá pelas dez, dez e meia. Tudo bem, a gente nunca acordava antes das dez, porque dormíamos tarde e ficávamos com muita “ressaca” para acordar cedo. Acordei pelas dez e quinze e o Manuca já estava de pé, na sala, cuidando da “águia”. O bicho soltava uns guichos estridentes, que pareciam lanças e espadas arrebentando a minha cabeça “ressacada”. Chegou umas onze horas e o pessoal não havia voltado ainda, e eu falei pro Manuca que estávamos perdendo um baita dia de sol, presos em casa, por causa daquele filhote de urubu pelado; que não era justo, e se nós trancássemos bem as portas e janelas da sala, o bicho não iria morrer se ficasse uns quinze ou vinte minutos sozinho. O Manuca concordou com o argumento, fechamos bem os vidros e as portas, e deixamos a “Águia” com a sala toda pra ela. Demos uma espiadinha pela janela antes de saírmos, e vimos que realmente ela ficava mais nervosinha quando estava sozinha, dando voltinhas como se fosse um velho relógio descontrolado. Fora isso ela iria ficar bem, não tinha mais idade para aprontar, no máximo uma mijadinha ou cagadinha na sala, que a dona iria limpar com o maior prazer e depois enchê-la de beijinhos... Finalmente fomos pra praia, dia lindo, deu para dar uns mergulhos (tirar a ressaca), ficar num quiosque, tomar uma geladinha, e curtir as “munaias” desfilarem. Ficamos até umas duas da tarde e voltamos, porque as barrigas estavam roncando de fome, e nosso dinheiro já tinha se evaporado na ceva. Quando estávamos chegando perto da casa do Manuca vimos um grupinho de gente, que olhava e apontava para cima da casa. Não era uma coisa muito normal, algo havia acontecido. Cara, não dava para acreditar, a cena era patética e de tensão: a “Águia” havia escapado da sala (não pergunte como, porque verificamos todas as saídas e frestas possíveis), conseguiu escalar a parede, ou subiu pela árvore ao lado, e estava em cima do telhado. A irmã do Manuca era um desespero só, chorava e ao mesmo tempo xingava o “Azeitona” por sua tamanha irresponsabilidade. E a “Águia” lá em cima, feliz da vida, abrindo as suas asinhas completamente peladas, se assanhando quando batia um ventinho mais forte. Era um corre-corre atrás de uma escada para poder fazer o resgate antes que a caturrita caísse de lá. A “Águia” foi bem pro canto do telhado, e num ímpeto de grande coragem e ousadia, abriu bem as asinhas e se lançou num voo semelhante a um tijolo que cai de uma obra. A irmã do Manuca deu um grito, e achei que iria desmaiar. A “Águia” veio que era uma flecha, em sentido diagonal, e por sorte, mais do que juízo, escapou de se estatelar na rua de paralelepípido, e mergulhou fincada de cabeça num pequeno côlmoro de areia, ficando somente a parte traseira, com as duas peninhas aparecendo, imóvel. Tudo indicava que aquele foi o seu voo derradeiro... A irmã do Manuca correu, pegou a ave, que estava metade enterrada na areia, levou para dentro de casa, e foi dar os primeiros socorros. Sentimos que o “clima” não estava muito bom pra nós, e resolvemos retornar para a praia, porque o almoço não sairia tão cedo. Teve final feliz, a “Águia” sobreviveu a sua tentativa de voo suicida, e durou mais um bocado de anos, cada vez mais pelada e somente com as duas penas onde um dia ficava o rabo..."

quinta-feira, 4 de julho de 2019

"Gurizada Medonha" (mais um capítulo)

Mais capítulo inédito, dessa verdadeira epopeia pelos anos 80...


"Sábado a tardinha, caindo a noite, e a “massa” dando uma banda com as motinhos depois de um joguinho de futebol. No caminho demos uma parada no clube Farrapos, que tinha um bar legal para tomar umas cervejas. Não pudemos entrar porque o salão havia sido alugado, para uma festa de debutante, e ficamos só no “bico” cuidando os movimentos. Os vidros do clube eram espelhados, nós podíamos ver o pessoal lá dentro, mas eles não viam nada de fora. Lá dentro estavam todos em trajes de gala, a debutante toda de branco, num vestido longo e rendado, alguns rapazes vestidos em trajes militares, com sabre e tudo, isso porque o clube era de caráter militar. Ficamos olhando pelas janelas aquele luxo todo, aquela fartura de comida e bebida. Havia um segurança que era uma “parede” na porta de entrada, e não passava uma mosca sem ter o convite. Anoiteceu rapidamente, e na hora da valsa da debutante todo mundo se voltou para olhar, inclusive o segurança “gorila”, que entrou um pouco adentro do salão, para ver mais de perto o espetáculo, deixando um pequeno espaço entre ele e a porta. Apagaram as luzes, e só as velas iluminaram o salão, que se maravilhava com a aniversariante dançando com um, depois com outro. Com o salão escuro, o porteiro entrou mais um pouco para ver melhor a dança, e isso foi o suficiente para nós entrarmos um por um, na manha, sem sermos vistos. Aproveitamos a penumbra do ambiente, junto com a distração do segurança e convidados, achamos umas mesas vazias e sentamos. Dividimos o nosso grupo em duas mesas, para não chamar a atenção. Acho que estávamos em seis. Começamos imediatamente a abrir os embrulhos de comida que estavam na mesa, enrolados delicadamente em papel celofane, mandando ver nos docinhos e salgadinhos. Enquanto a debutante dançava nós íamos nos embuchando. Para abrir aqueles embrulhos o papel celofane fazia um barulho “xarope”, e o pessoal das mesas mais próximas começaram a nos olhar. Mas tudo bem, estava bem escuro, e todos os gatos eram pardos no salão. Liquidamos a comida das mesas, e quando o garçon passou pedimos para trazer chopp, ou cerveja gelada. O garçon nos olhou com uma cara não muito simpática e desapareceu. O “filho da mãe” não nos atendeu. Cada garçon que passava nós quase implorávamos uma ceva gelada, e nada. Aqueles salgadinhos e docinhos nos deixaram com mais sede ainda. Em dado momento a valsa terminou, e acenderam todas as luzes. Aquilo ficou mais iluminado que um campo de futebol, e a cena que se viu ali foi patética. Todo mundo ao redor “chiquetésimos”, brilhantes e impecáveis, e apenas duas mesas contrastavam com aquela nobreza imaculada. Aqueles seis miseráveis, vestidos com surrados e desbotados abrigos “adidas”, tênis velhos e sujos, camisetas suadas (afinal viemos de uma “pelada” de futebol), o que de certa forma contrastava violentamente com os “smokings” e trajes de gala. O Manuca chamava mais a atenção porque estava com uma camiseta amarelinha, da seleção brasileira. As nossas mesas estavam um “chiqueiro”, era farelo para tudo que era lado, papel celofane amassado, e mais farelo nas nossas caras e camisas. Aqueles olhares inquisidores estavam nos fuzilando, e começamos a ficar tensos. Uma distinta senhora, de uma mesa próxima a nossa, perguntou se éramos conhecidos da aniversariante. Antes que eu pudesse pensar numa resposta qualquer, o Wolfman soltou um baita de um peido, na cara dura, PRÓÓÓÒ..!!!, que deixou a madame de boca aberta e olhos arregalados... Era o fim ,caiu a casa, não tinha mais jeito, os segurança só não nos chutaram dali por causa do escândalo, e aqueles fardadinhos com as espadas estavam loucos para passar a lâmina no nosso lombo. Passou um garçon com um belo jarro de chopp, e o Cascuda ainda pediu para deixar o jarro na mesa, mas foi completamente ignorado. A tensão ficou ainda maior com a aproximação da aniversariante, que vinha cumprimentando o pessoal de mesa por mesa, e já estava bem próxima da nossa. Os seguranças só estavam esperando esse momento para nos colocar para fora. Tínhamos que fazer alguma coisa, então combinamos que cada um levantasse lentamente e saísse discretamente, de cantinho, sem chamar muito a atenção. Só que não combinamos quem seria o primeiro a levantar, e levantamos todos de uma vez. Derrubamos cadeiras e espalhamos farelo para tudo que é lado. Aquele foi o clímax da situação, a debutante estava nos olhando sem saber o que estava acontecendo, e os seguranças estavam vindo em nossa direção. Apertamos o passo em direção à saída, e, para minha surpresa, ainda ouvi o Wolfman falar para um cara, que estava comendo os salgadinhos da mesa: “Não come isso daí, que tá estragado..!” Kkkkkk!!! Que cara de pau! Saimos correndo, pegamos as nossas motos e sumimos dali. Essa foi uma bela duma “galinhagem” inesquecível..!"


segunda-feira, 17 de junho de 2019

"Gurizada Medonha" - Uma Odisseia Pelos Anos 80"

Terminei meu segundo livro, estou na fase da digitação e das imagens. O título provisório é: "Gurizada Medonha - Uma Odisseia Pelos Anos 80". O livro é sobre memórias de fatos que raramente poderiam acontecer hoje, e nessas últimas décadas, aventuras de uma turma da pesada que aprontaram várias durante a década de 80. Aqui vai um trechinho:


"O Cascuda tinha uma moto RD-125, importada, cor de telha, dois escapamentos e dois carburadores, apesar de um só funcionar. Eu adorava o ronco daquela motinho, era parecido com o ronco da RD-350 e lembrava até o super ronco da RD-750, só que era uma 125, bem menos potente. A moto tinha cinco marchas mas só andava bem até a quarta, e quando batia a quinta perdia a força por causa de um dos “carburas” pifados. Em 1981, 82, 83 até 84 você podia andar de moto na cidade sem capacete que não dava nada, além de poder pilotar sem camisa, de chinelos de dedo e até com três na garupa que tava liberado, a polícia não se encarnava, na época quem fiscalizava o trânsito era Brigada Militar, não existia os “azuizinhos” (fiscais de trânsito) e muito menos os kamikases dos moto-boys. Era uma delícia pilotar sentindo o vento no rosto, o cabelo voando, a sensação de liberdade era o máximo..! O Manuca tinha uma DT-125, azul, trail, importada, uma bicheira de respeito, mas que só funcionava com ele, se outro fosse pilotar ela pifava... Uma vez saímos eu e o Manuca na bicheira dele depois de termos tomado várias cevas em algum boteco. Não lembro onde estávamos mas já era tarde da noite. Ele pilotava e eu, na garupa, fazia as marchas... Que perigo! Nós meio emborrachados, sem capacetes, dando risadas sem rumo em plena av. Bento Gonçalves, nas proximidades da PUC, na madruga. De repente quebramos uma travessa e subimos uma rua escura em direção a uma das vilas do Partenon. Rua escura, pouca iluminação, e nós dando risadas e berros em cima da motinho. Passamos por um grupo de pessoas e resolvemos dizer umas gracinhas nada educada para eles, e depois pé na tábua porque eles realmente não gostaram de ser provocados. Só que na hora de se mandar a moto começou a engasgar, e eu, na garupa, não conseguia engatar as marchas. O Manuca gritava: “Vâmo Pica-Pau!!! Engata essa merda!!!” E a coisa não ia, e a turminha brava se aproximava perigosamente... E para piorar mais a moto apagou! Eu pulei da garupa para ver se o Manuca conseguia ligar a bicheira, e nada... Comecei a ficar apavorado porque os caras estavam bem perto e com certeza seríamos linchados. A moto parecia ter “afogado”, falei para o Manuca que eu iria empurrar para ver se pegava. Já era desespero, e eu sai empurrando a bicheira naquela escuridão, sem saber direito onde estávamos, e os gritos cada vez mais forte de “pega”! “pega!”, “mata!”..! Quando eles estavam a poucos metros de nós a moto pegou e o Manuca saiu voando, me deixando para trás, correndo atrás dele..! “Volta, Manuca!! Os caras vão me matar!!” Ele já tinha andado uma meia quadra, fez a volta, e eu consegui pular na garupa como se fosse um sapo, e sumimos dali a milhão, escapando da ira sanguinária da turba..."

sábado, 19 de janeiro de 2019

Pinturas de novembro de 2018

Final de novembro, faltavam 3 dias para acabar minhas férias. Estava muito a fim de pintar mas todos os esboços e ideias que eu havia separado não me agradavam, ou estimulavam; então estava sem nenhuma ideia inicial para colocar na tela. Comprei uma tela um pouco maior e resolvi "atacá-la" sem nenhum prévio esboço ou estudo anterior, simplesmente na intuição e improviso, e em menos de uma hora havia terminado o quadro. Uma explosão de cores e muita liberdade expressiva nas pinceladas e na composição.
Com o sucesso no desenvolvimento e processo dessa pintura, não quis parar e comprei outra tela, das mesmas dimensões, 100cm x 70cm, e ataquei no dia seguinte, pintando da mesma forma, de improviso e intuição. O resultado foi outro, também bom, demorou mais tempo, o tema continuava no abstrato mas não foi tão "selvagem" como o anterior.
Como a coisa estava funcionando inspirada, comprei mais uma tela, do mesmo tamanho, e parti para a terceira pintura, no meu último dia de férias. Com o mesmo propósito de atuação no improviso e intuição, essa última tela fechou como algo mais solidificado, mais formal, saindo do abstrato em busca de elementos mais estruturados. Foi o final desse ciclo, que do "fogo" da primeira tela foi se cristalizando para um conjunto mais fechado e menos dinâmico, mas que destacou bem as cores e os contrastes.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

"Fast Jaguar in the Dead-End Night Street" (part One) (2018)

Estava a fim de pintar no final das minhas férias, mas não tinha nenhum esboço inspirativo para ativar a ação. Resolvi então comprar uma tela um pouco maior e deixar o intuitivo deixar me levar por caminhos desconhecidos. E funcionou...!

Técnica mista sobre tela
90 x 100 cm
nov / 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

Pinturas de novembro

Aproveitando as férias de novembro resolvi pegar os pincéis e ver o que que dava. Tinha alguns projetos em mente mas nada que me entusiasmasse muito. Resolvi então comprar uma tela maior e me "atirar" com tudo, sem projeto, sem nada, só na intuição e no improviso... Funcionou. Foram três telas em três dias, todas com 70 x 100 cm. Aí estão elas..

domingo, 19 de agosto de 2018

"Ice Face In Glass" (2018)

Técnica mista s/ eucatex
40 x 30 cm
Ago / 2018